sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Sinal intermitente




Ora triste, ora calado
Ora sorrindo, ora gargalhando
Ora amuado, ora eu
Ora você, ora, ora
Ora forte, ora halterofilista
Ora fraco como galho seco
Ora pai, ora mãe
Ora filho, ora ninguém
Ora ora, ora perdido
Ora............
Ora gordo, ora magro
Ora oração, ora paz
Ora tsunami, ora só você para me definir.

Maria de Jesus
Dez/2014

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Minha organização




Gosto das minhas coisas assim
Tudo bem organizado
Na minha desorganização.
Gosto de ver minha mesa repleta de papéis
Onde posso encontrar tudo, assim que peçam
Mas quem vem de fora não entenderá nada.
Gosto de ver meu quarto lotado
Cheio de bugigangas, mas se pedem minha roupa
De sair, ela está na mão.
E quando vem a arrumadeira, ela foge desesperada
Pensando que não vai dar conta de arrumar tudo.
Gosto de ver minha vida enrolada
Mas quando alguém precisar de amor, ele está explícito
Pronto para ser entregue imediatamente.
Sou assim, vivo numa desorganização, organizada.


Maria de Jesus
dez/2014

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Desafio




Vou desafiar você para sair comigo pelas ruas
 nua de sentimentos, para olhar a lua clara
Para me conter, me mover do meu ostracismo
Para me fazer bolo de laranja e me contentar com único pedaço
Para frequentar a academia e perder aquela barriga
Tirar o meu diabetes mesmo aproveitando o doce do seu beijo
Para andar quilômetros sem reclamação, sem distorção
A ser feliz, esquecer nossas loucuras
Vou desafiar você a não comprar roupas e sapatos
Doar seus excessos, sair pelas ruas distribuindo abraços
Aos desconhecidos e amigos
Vou desafiar você a pegar na minha mão
Indicar-me o caminho, cortar as arestas
A não cansar e não se cansar
Vou desafiar você a olhar nos meus olhos
Sem choro e a não me deixar chorando
A sentir a brisa, a maré e maresia
Vou desafiar você a andar descalça
Sem calça, sem causa, a ver os pássaros cantando os hinos
Vou desafiar você a viver e me ensinar a viver
E me fazer guerreiro
Vou desafiar você a me desafiar.

Maria de Jesus
Nov/14

domingo, 23 de novembro de 2014

O homem da sorte




Caminhando sozinho, neste mundão de meu Deus, Zé da Silva, ou melhor, José da Silva, mas ele não gostava de José, era Zé da Silva e nada mais, pensava na vida, nos filhos, um rapaz de 16 anos e uma menina de quatorze anos. Bem sabia Zé que as coisas estavam difíceis, os filhos eram adolescentes, e como todos adolescentes estavam querendo assumir a própria vida. Começavam a responder e protestar, o que não era comum deles. Zé tinha mais preocupações, isto saltava aos olhos, pois os meninos agora estavam no 2º Grau, na Escola eram bons alunos, ah... isso eram mesmo,  ponderava o bom homem do campo,  nunca deram trabalho, nem aos pais e muito menos aos professores, mas não ia delongar, viria a época da faculdade.
Afinal, estudar... estudar para depois não chegar a lugar algum? Não, não era certo. Mas como e onde arrumar dinheiro para fazer frente aos cursos? Eles trabalhavam meio a contragosto das autoridades, que diziam serem novos para o trabalho. Coisa de doido, não deixaria filho seu aprendendo coisa ruim por aí. Vai trabalhar mesmo, nem que for para ganhar pouco. Perdido em seus pensamentos, Zé não viu uma pedra, acabando por tropeçar nela, inclinando seu corpo, caindo de “cata cavaco” numa moita de capim colonião, bem à frente, deixando escapar um palavrão.
 Nem deu tempo de pensar, o homem teve que se levantar rapidamente, com a rapidez de um corisco cortando o céu, pois uma cobra estava pronta para dar o bote. O lavrador saiu tão disparado que nem o recordista olímpico nos 100m rasos o alcançaria. Passado o susto, mas ainda esbaforido, parou, sentou-se numa pedra, esta sem perigo, para descansar. Sentado e introspectivo nem se apercebeu que várias borboletas o rodeavam. O lugar era muito limpo, dava gosto ver o trabalho da natureza, pequenas flores sendo beijadas pela lindas borboletas, mas o caipira não via, os pensamentos voavam longe, muito longe.
Dava graças a Deus por ter tido apenas um arranhão, o dedão do pé ainda doía, mas não era nada, perto do que acabara de acontecer. Pensava na esposa em casa com o filho de quatro anos, uma raspinha de tacho que escapou porque o preservativo estava furado, Mas agora não havia mais perigo, Jéssica tinha “operado” e, não teria mais filhos. É, a esposa, pensava Zé da Silva, tinha nome de mulher da sociedade, não era nenhuma Maria, não que Maria não seja nome digno, muito pelo contrário, mas se sua mulher tivesse estudado quem sabe não seria a Doutora Jéssica. Mas será que sendo Doutora iria casar com um homem da roça que nem ele?
 Enquanto estava envolto com seus pensamentos não percebeu que uma lebre se aproximara. Assustou-se ao ver o animalzinho saltando daqui pra ali, talvez em busca de alimentos ou mesmo aproveitando a liberdade que tinha. Ainda sentado na pedra, mas encostado numa árvore que lhe dava sombra para seu descanso, se preparava para seguir seu caminho, eis que ouviu um tropel de cachorros, um barulho e, sentiu que algo passou rente a seu rosto, queimando. Passou a mão, sentiu que um líquido escorria pela face, olhou, era sangue.
Virou-se em direção de onde vinha toda a balbúrdia, percebeu que os animais se aproximavam rapidamente e junto com eles, uma pessoa com uma arma, talvez uma espingarda. Antes de tudo, subiu na arvore como um gato, ficando atocaiado entre os galhos, pois sabe-se lá se os cachorros são bravos ou só caçadores. Ao se aproximarem, farejavam a presença da lebre, mas talvez esta tivesse uma toca próximo dalí, junto a uma touceira de capim, onde os cães não pudessem alcançá-la, estes, retornaram e ficaram latindo junto ao tronco da árvore.
O desconhecido pediu desculpas ao capiau, esclarecendo que procurava umas lebres ou coelhos para o jantar, e que não quis assustá-lo, mas não o tinha visto daquela distância. Embora contrariado e vendo que não havia mais sangue escorrendo, mas para não criar mais caso e se atrasar, o desculpou, e quando a arruaça acabou, desceu e saiu tomando rumo de casa.  
Agora mais bravo do que nunca saiu estrada a fora, resmungando contra todos, até a última geração. Faltando um bom trecho ainda, resolveu cortar pelas terras da fazenda, assim chegaria mais depressa. Fazendo isso prosseguiu nos seus pensamentos, de como arranjar um jeito de fazer os filhos estudarem na faculdade quando chegasse à hora. Tropeça daqui, tropeça dalí, chuta o chão, mas continuava andando, o caminho era irregular e passagem de bois da fazenda.
Foi assim que o Zé se esqueceu da existência do Negão, um boi nelore. Talvez o mais bravo da fazenda. Negão era tão bravo que precisavam vários homens, com seus cavalos, para conduzi-lo na hora de aplicar as vacinas, remédios ou mesmo pesá-lo, pois mesmo sendo bravo, era ótimo reprodutor e rendia muitos dividendos ao pecuarista, dono da fazenda, com a venda de sêmen.
Ainda absorto Zé já avistava sua casinha, logo após a cerca alta e reforçada, que era para evitar que o nelore pulasse. De repente um estalo e o sertanejo lembrou-se da existência da rês. Olhou em volta, assustado, procurando, mas nada viu. Tranqüilizou-se e foi seguindo em frente, passo-a-passo, e... um mugido soou, alertando que o touro estava próximo.....mais outro mugido, este parecia mais próximo ainda.  Devagarzinho o roceiro ergueu a cabeça. Lá estava ele, o temido animal, não mais que 70 ou 80 metros de distância, beirando seus 700 kg. Ciscava o chão como forma de aviso que estava prestes a atacar. No relance, Zé mediu a distância para atravessar a cerca que o protegeria e, pelos seus cálculos, seria metade da distancia onde se encontrava o touro.
 Criando coragem e achando a agilidade daquela lebre, correu diretamente ao cercado, sem sequer escolher como passar. No primeiro impacto, não deu certo, pois bateu contra um dos fios e foi jogado para trás, no chão. Na segunda tentativa achou-se já do outro lado, sem sequer ter a noção de como passara a cerca. Estava salvo, por pouco, mas estava e com o animal bufando bem pertinho. . Voltou a falar mal do mundo por sua má sorte nesse dia. Sentou-se no chão, mais esbaforido que anteriormente e deitou-se, coração disparado. Pensou que sua sorte foi o peso do Negão, pois se fosse mais leve seria mais ligeiro e o alcançaria. Mais descansado levantou-se, tomou rumo de casa que ficava após um milheiro de pés de café. Andando, agora devagar, estava chegando ao cafezal, onde do outro lado, tinha também plantação de cana, para fazer ração animal.
 Chegaria a casa rapidamente. Mas eis que, não se sabendo de onde, passa por entre suas penas um capado que estava sendo tratado para o Natal. Zé havia se esquecido que, entre as plantações e sua casa, havia uma pocilga e os dejetos passavam por ali, até ao local de tratamento. O impacto do porco com suas pernas fez com que o Zé caísse justo nessa canalização a céu aberto, de frente, sujando toda a face, tórax e abdome. Quanto mais se mexia para se levantar, mais se sujava, pois escorregava e retornava para o canal. Isso durou aproximadamente 5 minutos.
Quando conseguiu seguir em frente, os porquinhos o seguiam e Zé esbravejava, chutava o nada ou mesmo os animaizinhos que o acompanhavam, estes saiam gritando, com o barulho que só os porcos sabem fazer. Dava socos no ar. Enxergar, enxergava através de um buraco que fizera com as mãos, limpar não limpou, apenas deu condições para que chegasse até sua casa. Continuava escorregando, caindo aqui e ali, procurando chão firme, mas conseguiu chegar a casa.
Cheirava a chiqueiro, à porco, estava revoltado com o mundo. Banheiro, cadê um banheiro, com muito sabão para tirar aquela caca. Gritava o nome da esposa, quase que pedindo socorro. Jéssica aos ouvir os gritos do marido correu para abrir a porta. Nessa hora, Zé que também se encostou à porta, tropeçou no batente, indo parar debaixo da mesa. Os meninos, a faculdade, eles que trabalhassem para conseguir. Zé estava preocupado em sair da cama, depois de ter uma das pernas quebrada, com fratura exposta e feito cirurgia no nariz, também quebrado, naquele fatídico dia.

Maria de Jesus
Nov/14

Liberdade da Rosa



E seu eu for ao teu encontro, quem cuidará de mim
Pois a cada aproximação, mais distante fico.
Ouço os estalados das rosas a se abrirem
Ao mesmo tempo em que a fumaça se expande
Nas palavras de seu jardineiro
Que luzirá um manto florido
Sem aspas, sem arestas, sem medo.
Eu, que sou o jardineiro volátil
Vindo daqui, de acolá, rio para todas as ervas,
 Alamedas e bichos aproveitadores.
Busco dar as rosas o seu jardineiro.
Quero que seus brotos possam crescer
Sem o empecilho de seu pólen ser levado
Para o alto, para o céu, para a vida!

Aí abandonarei a máscara que me esconde
Mas que me deixa  a margem
Da minha luta.




Maria de Jesus