Caminhando sozinho, neste
mundão de meu Deus, Zé da Silva, ou melhor, José da Silva, mas ele não gostava
de José, era Zé da Silva e nada mais, pensava na vida, nos filhos, um rapaz de
16 anos e uma menina de quatorze anos. Bem sabia Zé que as coisas estavam
difíceis, os filhos eram adolescentes, e como todos adolescentes estavam
querendo assumir a própria vida. Começavam a responder e protestar, o que não
era comum deles. Zé tinha mais preocupações, isto saltava aos olhos, pois os
meninos agora estavam no 2º Grau, na Escola eram bons alunos, ah... isso eram
mesmo, ponderava o bom homem do
campo, nunca deram trabalho, nem aos
pais e muito menos aos professores, mas não ia delongar, viria a época da
faculdade.
Afinal, estudar... estudar
para depois não chegar a lugar algum? Não, não era certo. Mas como e onde
arrumar dinheiro para fazer frente aos cursos? Eles trabalhavam meio a
contragosto das autoridades, que diziam serem novos para o trabalho. Coisa de
doido, não deixaria filho seu aprendendo coisa ruim por aí. Vai trabalhar
mesmo, nem que for para ganhar pouco. Perdido em seus pensamentos, Zé não viu
uma pedra, acabando por tropeçar nela, inclinando seu corpo, caindo de “cata
cavaco” numa moita de capim colonião, bem à frente, deixando escapar um
palavrão.
Nem deu tempo de pensar, o homem teve que se
levantar rapidamente, com a rapidez de um corisco cortando o céu, pois uma
cobra estava pronta para dar o bote. O lavrador saiu tão disparado que nem o recordista
olímpico nos 100m rasos o alcançaria. Passado o susto, mas ainda esbaforido,
parou, sentou-se numa pedra, esta sem perigo, para descansar. Sentado e
introspectivo nem se apercebeu que várias borboletas o rodeavam. O lugar era
muito limpo, dava gosto ver o trabalho da natureza, pequenas flores sendo
beijadas pela lindas borboletas, mas o caipira não via, os pensamentos voavam
longe, muito longe.
Dava graças a Deus por
ter tido apenas um arranhão, o dedão do pé ainda doía, mas não era nada, perto
do que acabara de acontecer. Pensava na esposa em casa com o filho de quatro
anos, uma raspinha de tacho que escapou porque o preservativo estava furado,
Mas agora não havia mais perigo, Jéssica tinha “operado” e, não teria mais
filhos. É, a esposa, pensava Zé da Silva, tinha nome de mulher da sociedade,
não era nenhuma Maria, não que Maria não seja nome digno, muito pelo contrário,
mas se sua mulher tivesse estudado quem sabe não seria a Doutora Jéssica. Mas
será que sendo Doutora iria casar com um homem da roça que nem ele?
Enquanto estava envolto com seus pensamentos
não percebeu que uma lebre se aproximara. Assustou-se ao ver o animalzinho
saltando daqui pra ali, talvez em busca de alimentos ou mesmo aproveitando a
liberdade que tinha. Ainda sentado na pedra, mas encostado numa árvore que lhe
dava sombra para seu descanso, se preparava para seguir seu caminho, eis que
ouviu um tropel de cachorros, um barulho e, sentiu que algo passou rente a seu
rosto, queimando. Passou a mão, sentiu que um líquido escorria pela face, olhou,
era sangue.
Virou-se em direção de
onde vinha toda a balbúrdia, percebeu que os animais se aproximavam rapidamente
e junto com eles, uma pessoa com uma arma, talvez uma espingarda. Antes de
tudo, subiu na arvore como um gato, ficando atocaiado entre os galhos, pois
sabe-se lá se os cachorros são bravos ou só caçadores. Ao se aproximarem,
farejavam a presença da lebre, mas talvez esta tivesse uma toca próximo dalí,
junto a uma touceira de capim, onde os cães não pudessem alcançá-la, estes,
retornaram e ficaram latindo junto ao tronco da árvore.
O desconhecido pediu
desculpas ao capiau, esclarecendo que procurava umas lebres ou coelhos para o
jantar, e que não quis assustá-lo, mas não o tinha visto daquela distância.
Embora contrariado e vendo que não havia mais sangue escorrendo, mas para não
criar mais caso e se atrasar, o desculpou, e quando a arruaça acabou, desceu e
saiu tomando rumo de casa.
Agora mais bravo do que
nunca saiu estrada a fora, resmungando contra todos, até a última geração.
Faltando um bom trecho ainda, resolveu cortar pelas terras da fazenda, assim
chegaria mais depressa. Fazendo isso prosseguiu nos seus pensamentos, de como
arranjar um jeito de fazer os filhos estudarem na faculdade quando chegasse à
hora. Tropeça daqui, tropeça dalí, chuta o chão, mas continuava andando, o
caminho era irregular e passagem de bois da fazenda.
Foi assim que o Zé se
esqueceu da existência do Negão, um boi nelore. Talvez o mais bravo da fazenda.
Negão era tão bravo que precisavam vários homens, com seus cavalos, para
conduzi-lo na hora de aplicar as vacinas, remédios ou mesmo pesá-lo, pois mesmo
sendo bravo, era ótimo reprodutor e rendia muitos dividendos ao pecuarista,
dono da fazenda, com a venda de sêmen.
Ainda absorto Zé já avistava
sua casinha, logo após a cerca alta e reforçada, que era para evitar que o
nelore pulasse. De repente um estalo e o sertanejo lembrou-se da existência da
rês. Olhou em volta, assustado, procurando, mas nada viu. Tranqüilizou-se e foi
seguindo em frente, passo-a-passo, e... um mugido soou, alertando que o touro
estava próximo.....mais outro mugido, este parecia mais próximo ainda. Devagarzinho o roceiro ergueu a cabeça. Lá
estava ele, o temido animal, não mais que 70 ou 80 metros de distância,
beirando seus 700 kg. Ciscava o chão como forma de aviso que estava prestes a
atacar. No relance, Zé mediu a distância para atravessar a cerca que o protegeria
e, pelos seus cálculos, seria metade da distancia onde se encontrava o touro.
Criando coragem e achando a agilidade daquela
lebre, correu diretamente ao cercado, sem sequer escolher como passar. No
primeiro impacto, não deu certo, pois bateu contra um dos fios e foi jogado
para trás, no chão. Na segunda tentativa achou-se já do outro lado, sem sequer
ter a noção de como passara a cerca. Estava salvo, por pouco, mas estava e com
o animal bufando bem pertinho. . Voltou a falar mal do mundo por sua má sorte
nesse dia. Sentou-se no chão, mais esbaforido que anteriormente e deitou-se,
coração disparado. Pensou que sua sorte foi o peso do Negão, pois se fosse mais
leve seria mais ligeiro e o alcançaria. Mais descansado levantou-se, tomou rumo
de casa que ficava após um milheiro de pés de café. Andando, agora devagar, estava
chegando ao cafezal, onde do outro lado, tinha também plantação de cana, para
fazer ração animal.
Chegaria a casa rapidamente. Mas eis que, não
se sabendo de onde, passa por entre suas penas um capado que estava sendo
tratado para o Natal. Zé havia se esquecido que, entre as plantações e sua
casa, havia uma pocilga e os dejetos passavam por ali, até ao local de
tratamento. O impacto do porco com suas pernas fez com que o Zé caísse justo nessa
canalização a céu aberto, de frente, sujando toda a face, tórax e abdome. Quanto
mais se mexia para se levantar, mais se sujava, pois escorregava e retornava
para o canal. Isso durou aproximadamente 5 minutos.
Quando conseguiu seguir
em frente, os porquinhos o seguiam e Zé esbravejava, chutava o nada ou mesmo os
animaizinhos que o acompanhavam, estes saiam gritando, com o barulho que só os
porcos sabem fazer. Dava socos no ar. Enxergar, enxergava através de um buraco
que fizera com as mãos, limpar não limpou, apenas deu condições para que
chegasse até sua casa. Continuava escorregando, caindo aqui e ali, procurando
chão firme, mas conseguiu chegar a casa.
Cheirava a chiqueiro, à
porco, estava revoltado com o mundo. Banheiro, cadê um banheiro, com muito
sabão para tirar aquela caca. Gritava o nome da esposa, quase que pedindo
socorro. Jéssica aos ouvir os gritos do marido correu para abrir a porta. Nessa
hora, Zé que também se encostou à porta, tropeçou no batente, indo parar
debaixo da mesa. Os meninos, a faculdade, eles que trabalhassem para conseguir.
Zé estava preocupado em sair da cama, depois de ter uma das pernas quebrada,
com fratura exposta e feito cirurgia no nariz, também quebrado, naquele
fatídico dia.
Maria de Jesus
Nov/14