Quando “seu” Neco
chegou a casa com a família depois de uma festa na casa de familiares, que foi
muito boa isso por volta das 03H00, foi guardar “as coisas”, colocar na cama os
filhos, esses já estavam dormindo há horas. Dona Neide, caindo de sono, também se
preparava para dormir, mas ficou um pouco mais, ajudando o “seu” Neco. A
família morava na zona urbana da cidade, mas já próximo a zona rural e gostavam
dali, pois tinha pasto, matinha, aves, animais, e melhor, tudo era limpo, isso
dava segurança aos moradores do local mesmo que à noite as sobras faziam das árvores
um monstro.
Neco já ia fechando a
porta, última coisa a fazer, quando escutou um barulho meio abafado, voltou... Acendeu
a luz de fora, mas não viu e nem escutou mais nada. Pensou... deve ser gato ou
cachorro que fica nas noites bagunçando o quintal das casas. Foi deitar. Não deu muito tempo e ele foi
acordado por Dona Neide, assustada, dizendo que tinha ouvido barulho no quintal.
Neco foi à cozinha pegou reio de bater em animal e uma faca de cortar cana,
mesmo sendo seguro por dona Neide, foi ver o que estava acontecendo.
Dona Neide tinha se
arrependido de acordar o marido, mas agora era tarde, pois Neco já estava fora
da casa procurando o causador do barulho e quase acordando a todos, pois seria
possível, se continuasse, acordaria as crianças. Acendeu a luz de fora, pegou o
farolete e saiu procurando, andou perto da casa, foi mais adiante, perto de
onde os animais dormiam e nada. Neco pensava
se foi algum cachorro ou gato, foi embora, mas deve estar com fome, pois não
foi deixado nada que açoitasse a fome desses animais, muito pelo contrário,
tudo estava limpo, pois o pessoal que recolhe lixo passou no finalzinho da
tarde.
Mas que será? Pensava! Como não tinha achado
nada voltou para dentro da casa, para continuar dormindo, pois logo de
manhãzinha tinha que tirar o leite das vacas e de certo acordaria mais tarde, atrasado,
mas o dia seria longo. Quando estava novamente num sono gostoso, veio o
maiorzinho lhe acordando, pois tinha escutado barulho lá fora e não estava
conseguindo dormir, além do mais, estava ficando com medo, pois o barulho não
parava.
Neco disse para o
menino dormir sossegado, não tinha nada la fora, ele foi duas vezes verificar e
não encontrou nada e durante o dia procuraria o que ou quem teria feito aquele
barulho. Já devia ser umas quatro e meia,
passada, e tava com muito sono. O menino saiu, foi para o quarto, mas não
demorou muito, voltou dizendo que o barulho continuava e não o deixava dormir.
Bom, já que tinha
cordado, “seu” Neco se levantou, ia ordenhar as vacas, tinham algumas, que lhe
rendiam um bom sustento no final do mês, dormiria um pouco durante o dia. Foi
no banheiro, se lavou, e já que a mulher tinha ficado na cama, fez o café,
preparou as traias. Novamente, agora um pouco mais forte, mas ainda assim
abafado, ouviu o barulho, talvez um urro, algo desse tipo, mas acostumado com
os barulhos da noite, não fez caso. Tomou o café, pegou o baldinho, o banquinho
e foi se dirigindo para o local onde normalmente faz a ordenha. Mas nesta
madrugada algo lhe pareceu mais estranho, embora a luz da lua fosse forte,
porem as sombras das arvores estavam mais assustadoras.
Clareou o caminho para ver
onde pisava, não queria pisar num animalzinho de hábitos noturno. Chegou ao
piquete, tudo estava normal, os bezerros presos, enquanto as vacas ainda
ruminavam por perto, mas do outro lado. Buscou a primeira que seria ordenhada e
quando estava sentado no banquinho já quase pegando no teto da vaca, escutou
atrás de si, um barulho mais forte, que quase o derrubou. Estranhando olhou e
nada viu, nem mesmo clareando artificialmente.
Eita, esse deve ser um
dia difícil, pensou, já está começando mal. Tinha fechado o piquete, disso
tinha certeza, talvez um boi machucado, tinha muitos buracos por ali e talvez uma
pisada em falso do animal pesado, tenha torcido o mocotó dele. Bom, quando
clareasse o dia iria atrás. Agora o dia já vinha amanhecendo, os primeiros
raios de sol apontavam no horizonte, assim que pudesse ver melhor, iria dar uma
espiada. Começou a tirar o leite.
Ele, Neco, não era
assim mais novo, tinha por volta dos 40 anos, acostumado a lidar com a dureza
da vida, tinha suas reservas de energia, mas não era um “Shuazineguer”, que ele
ouvira falar que foi um dia, o homem mais forte do mundo, acho que lá nos
Estados Unidos, repetia aos amigos. Deu uma olhadinha novamente para o céu para
ver se o sol tinha levantado mais, quando ouviu novamente o barulho, agora bem
mais forte. Eita que quase caiu do banquinho, mas o berro era estranho e de
fazer medo.
Que será isso? Esticou
o pescoço, deu uma olhadinha em volta da mangueira, não viu nada, por isso se
arrepiou todo. Coisa estanha, tão perto e não há nada? Novamente levantou os
olhos, foi repassando pela mangueira, pelo piquete e de repente... lá estava
ela, olhando pra ele. Deitada, mas fazia medo. Aqueles olhos grandes fitavam o Neco,
que se estremeceu todo. Assim de uma hora para outra, Neco virou atleta, não
sabe como deu a partida, como fez o salto com obstáculo, pulando a cerca do
piquete, como correu os 100 metros rasos para chegar até a sua casa, e muito
menos, como fez o salto em altura, pois ao invés das portas, ele entrou pela
janela que era mais alta do que o normal.
Pegou o telefone para
chamar os bombeiros, acordando todo mundo que estava na casa, quase não
conseguia falar, pensou em chamar uma fonaudióloga, mas pediu ajuda aos homens
do fogo. Quando os bombeiros chegaram a
Sussurana ainda esta no mesmo local, onde devia ter estado o tempo todo, mas
que Neco não viu por ser meio escondido numa moita, só dava pra ver melhor de
dentro do piquete.
Ela estava machucada,
com a pata quebrada, ficou sabendo bem depois e, talvez por isso não tivesse
atacado seus animais, embora aonde fora encontrada, presume-se que a intenção
da fera era essa. Hoje, Neco não vai para ordenhar os animais sem dar uma bela
“espiada” ao redor da mangueira e do piquete, afinal, não aguenta praticar
vários esportes ao mesmo tempo.
Maria de Jesus
2014
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