sábado, 22 de novembro de 2014

O homem e as sombras

Quando “seu” Neco chegou a casa com a família depois de uma festa na casa de familiares, que foi muito boa isso por volta das 03H00, foi guardar “as coisas”, colocar na cama os filhos, esses já estavam dormindo há horas.  Dona Neide, caindo de sono, também se preparava para dormir, mas ficou um pouco mais, ajudando o “seu” Neco. A família morava na zona urbana da cidade, mas já próximo a zona rural e gostavam dali, pois tinha pasto, matinha, aves, animais, e melhor, tudo era limpo, isso dava segurança aos moradores do local mesmo que à noite as sobras faziam das árvores um monstro.
Neco já ia fechando a porta, última coisa a fazer, quando escutou um barulho meio abafado, voltou... Acendeu a luz de fora, mas não viu e nem escutou mais nada. Pensou... deve ser gato ou cachorro que fica nas noites bagunçando o quintal das casas.  Foi deitar. Não deu muito tempo e ele foi acordado por Dona Neide, assustada, dizendo que tinha ouvido barulho no quintal. Neco foi à cozinha pegou reio de bater em animal e uma faca de cortar cana, mesmo sendo seguro por dona Neide, foi ver o que estava acontecendo.
Dona Neide tinha se arrependido de acordar o marido, mas agora era tarde, pois Neco já estava fora da casa procurando o causador do barulho e quase acordando a todos, pois seria possível, se continuasse, acordaria as crianças. Acendeu a luz de fora, pegou o farolete e saiu procurando, andou perto da casa, foi mais adiante, perto de onde os animais dormiam e nada.  Neco pensava se foi algum cachorro ou gato, foi embora, mas deve estar com fome, pois não foi deixado nada que açoitasse a fome desses animais, muito pelo contrário, tudo estava limpo, pois o pessoal que recolhe lixo passou no finalzinho da tarde.
  Mas que será? Pensava! Como não tinha achado nada voltou para dentro da casa, para continuar dormindo, pois logo de manhãzinha tinha que tirar o leite das vacas e de certo acordaria mais tarde, atrasado, mas o dia seria longo. Quando estava novamente num sono gostoso, veio o maiorzinho lhe acordando, pois tinha escutado barulho lá fora e não estava conseguindo dormir, além do mais, estava ficando com medo, pois o barulho não parava.
Neco disse para o menino dormir sossegado, não tinha nada la fora, ele foi duas vezes verificar e não encontrou nada e durante o dia procuraria o que ou quem teria feito aquele barulho.  Já devia ser umas quatro e meia, passada, e tava com muito sono. O menino saiu, foi para o quarto, mas não demorou muito, voltou dizendo que o barulho continuava e não o deixava dormir.
Bom, já que tinha cordado, “seu” Neco se levantou, ia ordenhar as vacas, tinham algumas, que lhe rendiam um bom sustento no final do mês, dormiria um pouco durante o dia. Foi no banheiro, se lavou, e já que a mulher tinha ficado na cama, fez o café, preparou as traias. Novamente, agora um pouco mais forte, mas ainda assim abafado, ouviu o barulho, talvez um urro, algo desse tipo, mas acostumado com os barulhos da noite, não fez caso. Tomou o café, pegou o baldinho, o banquinho e foi se dirigindo para o local onde normalmente faz a ordenha. Mas nesta madrugada algo lhe pareceu mais estranho, embora a luz da lua fosse forte, porem as sombras das arvores estavam mais assustadoras.
Clareou o caminho para ver onde pisava, não queria pisar num animalzinho de hábitos noturno. Chegou ao piquete, tudo estava normal, os bezerros presos, enquanto as vacas ainda ruminavam por perto, mas do outro lado. Buscou a primeira que seria ordenhada e quando estava sentado no banquinho já quase pegando no teto da vaca, escutou atrás de si, um barulho mais forte, que quase o derrubou. Estranhando olhou e nada viu, nem mesmo clareando artificialmente.
Eita, esse deve ser um dia difícil, pensou, já está começando mal. Tinha fechado o piquete, disso tinha certeza, talvez um boi machucado, tinha muitos buracos por ali e talvez uma pisada em falso do animal pesado, tenha torcido o mocotó dele. Bom, quando clareasse o dia iria atrás. Agora o dia já vinha amanhecendo, os primeiros raios de sol apontavam no horizonte, assim que pudesse ver melhor, iria dar uma espiada. Começou a tirar o leite.
Ele, Neco, não era assim mais novo, tinha por volta dos 40 anos, acostumado a lidar com a dureza da vida, tinha suas reservas de energia, mas não era um “Shuazineguer”, que ele ouvira falar que foi um dia, o homem mais forte do mundo, acho que lá nos Estados Unidos, repetia aos amigos. Deu uma olhadinha novamente para o céu para ver se o sol tinha levantado mais, quando ouviu novamente o barulho, agora bem mais forte. Eita que quase caiu do banquinho, mas o berro era estranho e de fazer medo.
Que será isso? Esticou o pescoço, deu uma olhadinha em volta da mangueira, não viu nada, por isso se arrepiou todo. Coisa estanha, tão perto e não há nada? Novamente levantou os olhos, foi repassando pela mangueira, pelo piquete e de repente... lá estava ela, olhando pra ele. Deitada, mas fazia medo. Aqueles olhos grandes fitavam o Neco, que se estremeceu todo. Assim de uma hora para outra, Neco virou atleta, não sabe como deu a partida, como fez o salto com obstáculo, pulando a cerca do piquete, como correu os 100 metros rasos para chegar até a sua casa, e muito menos, como fez o salto em altura, pois ao invés das portas, ele entrou pela janela que era mais alta do que o normal.
Pegou o telefone para chamar os bombeiros, acordando todo mundo que estava na casa, quase não conseguia falar, pensou em chamar uma fonaudióloga, mas pediu ajuda aos homens do fogo.  Quando os bombeiros chegaram a Sussurana ainda esta no mesmo local, onde devia ter estado o tempo todo, mas que Neco não viu por ser meio escondido numa moita, só dava pra ver melhor de dentro do piquete.
Ela estava machucada, com a pata quebrada, ficou sabendo bem depois e, talvez por isso não tivesse atacado seus animais, embora aonde fora encontrada, presume-se que a intenção da fera era essa. Hoje, Neco não vai para ordenhar os animais sem dar uma bela “espiada” ao redor da mangueira e do piquete, afinal, não aguenta praticar vários esportes ao mesmo tempo.



Maria de Jesus
2014


Nenhum comentário:

Postar um comentário