terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

A irmã do Marcão.




Modéstia à parte, sempre fui bem visto na região, desde rapaz bastante jovem. Isto de certa forma incomodava alguns outros jovens. Não me falavam claramente, mas o sentia no meu íntimo.
Lembro-me claramente, num desses dias em que tudo transcorria normal, até irmos à um bate bola, pelada, rachão ou o nome que queiram dar, na quadra da escola.  Sou bom de bola, principalmente do futsal, mas sempre era o último a ser escolhido, quando não, ficava na reserva no início do jogo.
Mas eu sabia bem o motivo, era a inveja dos outros por eu ser querido das garotas. Naquele dia também foi assim, só entrei pouco depois, quando um dos jogadores levou uma pancada e saiu. Foi aí que entrei no jogo.
Como sempre, entrei e comecei a fazer gols, um, dois, três... começaram as pancadas, na canela, no joelho, trancos nas costas. A coisa piorou quando algumas meninas chegaram e passaram a gritar o meu nome. Os jogadores que estavam no meu time e que mesmo ganhando, começaram a reclamar, falando que eu estava fazendo corpo mole, que eu era fominha, não passava a bola, que eu não era dono do time.
Eu continuava a fazer gols, embora de vez em quando fosse jogado ao chão, gemendo por uma entrada mais forte. Terminado o jogo, cada um para seu lado, fui embora acompanhado de algumas das meninas que assistiram parte do jogo. Não sem ouvir dos outros a pergunta, qual a graça que elas encontravam em nele?
A noite todos reunidos na sorveteria, bate papo, conversa fiada, por muito tempo. La pelas tantas começava a se desfazer o grupo, cada um indo para sua casa. Eu como de costume levava uma das amigas para casa, ora uma, ora outra, ora mais outra e, isso importunava. Não era raro ouvir piadinhas chatas.
Na escola no dia seguinte, as tais piadinhas se repetiam. O mais incomodado era o Marcão. De família mais abastada, com referência a nós outros, podia se dizer que era rico. Na parte de esportes, das amizades, eu era mais eu. Na parte educativa escolar, era o Marcão que se destacava.
Ficava na frente, sabia tudo, até ajudava os professores ensinando alguns alunos, os mais atrasados. Acho que por isso, por ser o cara dentro sala de aulas, queria ser o cara fora da escola.  Não me importava nada disso, as coisas aconteciam porque tinham que acontecer. Eu não fazia nada para ser diferente.
Quando tínhamos que formar grupos de estudos, sobrava para mim, novamente por vingança, um grupo ruim. Não eram as pessoas, essas eram boas, mas eram menos dotadas de inteligência.  Enfim, fazíamos todo o trabalho interno e externo, entregava na data certa, não ficava ruim, mas também não era àquela coisa.
Eu tinha algo a mais para apresentar. Era voluntário, me propunha a ajudar a escola no que precisasse. Rapidamente organizava tudo. Juntava as pessoas necessárias para o evento e, como sempre, as meninas estavam em maioria.  O Marcão, para isso, era muito diferente. Não gostava de participar, era alérgico ao trabalho. Jamais participou. Por isso ficava mordido. Não entendia que, cada um é cada um, e que cada aluno tem algo de si, de melhor, e que se juntado em grupo, tudo sairia á contento.
Enfim, depois ele descontava na quadra, na hora do jogo. Era quem mais me atingia com suas entradas, com seus pontapés, com seus chutes no meu calcanhar. Um dia tomei uma decisão. Achei que tudo isso teria que acabar, pois caso contrário eu poderia sair bem machucado ou até inutilizado.
Quando cheguei à sala de aulas no dia seguinte, reuni a classe e falei que a partir daquele dia eu estava menos disposto para atividades fora da escola. O Marcão era quem mais prestava atenção. Continuei falando, anunciei que estava namorando e não ficava bem deixar a namorada sozinha para ir jogar bola ou bater papo na sorveteria. Foi quando perguntaram quem era ela. Respondi, é a Laura. Nesse momento dos olhos do Marcão saíram faíscas, raios, coriscos que, se atingisse alguém, por certo cremaria, pois a Laura era nada mais, nada menos, que a irmã dele.

Maria de Jesus
fev/2015

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Estrada do Mil Alqueires

Estava retornando de minha jornada, era noite, e caminhava com a luz da lua. Ao longe, podia observar que estava mais claro, sinalizando que havia uma cidade, bem próximo. Vinha calmamente, passo a passo, brigando com meus pensamentos, de vez em quando levando sustos das criaturas da noite. Justo naquele dia, o carro quebrara e, eu não tinha outra opção a não ser caminhar, caminhar e caminhar. De manhã, certamente levaria um guincho para rebocá-lo até uma oficina. Um pio de uma coruja aqui, um correr de algum animalzinho assustado ali, nada que me fizesse desistir da caminhada. Mas, como desistir se já estava longe de onde deixei o carro. Não tinha mais volta. De repente ouço o tropel de cavalos vindo na minha direção. Corriam velozes, relinchando, não sei a quantidade, mas pareciam muitos, e cada vez mais pertos. Não sabia o que fazer, ir para beira da estrada? Não havia como, era muito mato e poderia haver cobra. Imaginei que chagando, passariam por mim sem problemas. Continuavam correndo e se aproximando. Ao chegarem perto, parei, esperando os animais, que passaram. Nesse momento percebi que estava num pasto, cercado e que não ofereciam problemas. Mas era noite, como saber? Continuei, mas desta vez, com passos mais longos, mas ainda sem pressa, afinal deveria ser pouco mais da meia noite. As árvores da beira da estrada faziam sombras com imagens horríveis. Ainda pensei, se alguém vier em sentido contrário, com carro, ou moto, pedirei para que me leve de volta, nem que tenha que pagar caro, mas valerá à pena.  Nem bem tinha acabado de pensar, a luz de um veículo apareceu, ainda distante, mas dando a esperança. Como pará-lo? Não tinha nem farolete, nada que pudesse sinalizar. O celular também ficou no carro, descarregado. Acho que assim que se aproximar entro na frente e o condutor me vendo, de certo vai parar. Esperei, esperei, mas continuei andando. Quando se aproximou, entrei rapidamente na frente, era moto, de susto o motociclista quase caiu, ficou meio que pendurado na moto, firmando o pé no chão, já gritando, “Não me mate, não me mate, não me mate”. Não vou te matar não moço, nem arma eu tenho. Foi neste momento que ele deu um pulo na moto, acelerou e sumiu na estrada, não dando tempo para que solicitasse ajuda. Putz, já ficando nervoso, será que terei que fazer todo o caminho a pé? Andei por cerca de uma hora e nem sinal de viva alma, nem mesmo para me assustar, pensei. Tudo estava calmo, calmo até demais.  Nesse passo em duas horas estarei chegando a minha casa. Não mais que de repente, de uma moita sai um animal de médio porte e vem na minha direção. Não pensei duas vezes, comecei a correr, eu que jamais tinha feito qualquer corrida raso meio fundo ou fundista, fiz os três ao mesmo tempo. O animal corria atrás de mim, quase me alcançando. Não era cachorro, pois não latia, a não ser que seja mudo. Percebi que ele já estava a certa distância, não me alcançaria se eu continuasse a correr, mas nesse momento, meus pés escorregaram na areia da estada e o tombo foi fantástico. O animal se aproximou, cheirou, cheirou e sumiu no mato. Era uma Anta, que estava tão assustada quando eu e deveria ter alguma cria nova. Ou será que a Anta era eu? Bem, agora que estou na chuva, vou me molhar, mas seguirei o caminho. As pernas já não queriam obedecer. Quanto eu tinha andado? Não sei e, sei menos ainda o quanto eu terei que andar. Xingava o carro de tantos nomes até a última geração dele, como se o mesmo tivesse alguma culpa. Na verdade a culpa era minha de não fazer a manutenção adequada. Bem, vamos em frente, pois seu eu parar, não chegarei nunca, apesar de que, se amanhecesse, teria melhores chances de conseguir carona. Ninguém, mas ninguém mesmo passava naquela estrada, naquela hora, a não ser o trouxa aqui. De repente sai um grito de minha garganta. Assustei-me com o voar de uma coruja, que de certo estava na estrada e ao alçar vou passou bem perto de minhas pernas, fazendo aquele barulho estridente, que só as corujas fazem. Acho que não sujei a roupa, pois não tinha comigo nada, fazia algum tempo. E pensar que eu tinha ido levar para casa, uma garota que eu estava afim dela, mas que seus pais, rudes, não a deixavam namorar e, por isso tive que deixá-la uns 500 metros antes do seu destino final. É para acabar com o meu dia mesmo. Olha lá se não chamarem a Policia e denunciar meu carro abandonado, logo de manhãzinha. Eu tenho que chegar à cidade e tomar as devidas providências. Isso já passava de duas horas da manhã. Na verdade quase três horas. De repente estaquei no meio do caminho, pois na minha frente alguns metros, uns trinta talvez, vira o vulto de uma pessoa parada. Não dava pra ver direito, somente a luz da lua que me ajudava. O que ele estará fazendo ali parado. Não se movia de modo algum. Eu assustado também não saía do lugar. E agora, pensei! Se for, posso ser atacado, mas se não vou, tenho que ficar aqui e me atrasar mais ainda. Coragem, cara, vá em frente, perdido por perdido, truco.  Fui, devagar quase parando, um passo à frente e dois atrás. Quando fui me aproximando, coração bateu ainda mais forte. Nada mais era do que ilusão de ótica formada por aqueles bonecos que ficam na beira da estrada, fazendo sinal de perigo, na passagem de caminhões. Os seus pequenos movimentos eram galhos e folhas que se moviam. Continuando, andei bem uns dez minutos, quando ouvi passos de cavalo, correndo na estrada. Era um cidadão daquelas bandas, que vinha com sua carroça. Dei sinal e o mesmo parou, contei minha história, ele me disse que estava indo para cidade ao Posto de Saúde, retirar guia para consultar o filho pequeno, que passara mal à noite. Levou-me deixando-me o mais próximo possível de minha residência Foi minha sorte.

Maria de Jesus
Fev/2015