Modéstia à parte,
sempre fui bem visto na região, desde rapaz bastante jovem. Isto de certa forma
incomodava alguns outros jovens. Não me falavam claramente, mas o sentia no meu
íntimo.
Lembro-me claramente,
num desses dias em que tudo transcorria normal, até irmos à um bate bola,
pelada, rachão ou o nome que queiram dar, na quadra da escola. Sou bom de bola, principalmente do futsal,
mas sempre era o último a ser escolhido, quando não, ficava na reserva no
início do jogo.
Mas eu sabia bem o
motivo, era a inveja dos outros por eu ser querido das garotas. Naquele dia
também foi assim, só entrei pouco depois, quando um dos jogadores levou uma
pancada e saiu. Foi aí que entrei no jogo.
Como sempre, entrei e
comecei a fazer gols, um, dois, três... começaram as pancadas, na canela, no
joelho, trancos nas costas. A coisa piorou quando algumas meninas chegaram e
passaram a gritar o meu nome. Os jogadores que estavam no meu time e que mesmo
ganhando, começaram a reclamar, falando que eu estava fazendo corpo mole, que
eu era fominha, não passava a bola, que eu não era dono do time.
Eu continuava a fazer
gols, embora de vez em quando fosse jogado ao chão, gemendo por uma entrada
mais forte. Terminado o jogo, cada um para seu lado, fui embora acompanhado de
algumas das meninas que assistiram parte do jogo. Não sem ouvir dos outros a
pergunta, qual a graça que elas encontravam em nele?
A noite todos reunidos
na sorveteria, bate papo, conversa fiada, por muito tempo. La pelas tantas
começava a se desfazer o grupo, cada um indo para sua casa. Eu como de costume levava
uma das amigas para casa, ora uma, ora outra, ora mais outra e, isso
importunava. Não era raro ouvir piadinhas chatas.
Na escola no dia
seguinte, as tais piadinhas se repetiam. O mais incomodado era o Marcão. De
família mais abastada, com referência a nós outros, podia se dizer que era
rico. Na parte de esportes, das amizades, eu era mais eu. Na parte educativa
escolar, era o Marcão que se destacava.
Ficava na frente, sabia
tudo, até ajudava os professores ensinando alguns alunos, os mais atrasados.
Acho que por isso, por ser o cara dentro sala de aulas, queria ser o cara fora
da escola. Não me importava nada disso,
as coisas aconteciam porque tinham que acontecer. Eu não fazia nada para ser
diferente.
Quando tínhamos que
formar grupos de estudos, sobrava para mim, novamente por vingança, um grupo
ruim. Não eram as pessoas, essas eram boas, mas eram menos dotadas de
inteligência. Enfim, fazíamos todo o
trabalho interno e externo, entregava na data certa, não ficava ruim, mas
também não era àquela coisa.
Eu tinha algo a mais
para apresentar. Era voluntário, me propunha a ajudar a escola no que
precisasse. Rapidamente organizava tudo. Juntava as pessoas necessárias para o
evento e, como sempre, as meninas estavam em maioria. O Marcão, para isso, era muito diferente. Não
gostava de participar, era alérgico ao trabalho. Jamais participou. Por isso
ficava mordido. Não entendia que, cada um é cada um, e que cada aluno tem algo
de si, de melhor, e que se juntado em grupo, tudo sairia á contento.
Enfim, depois ele
descontava na quadra, na hora do jogo. Era quem mais me atingia com suas
entradas, com seus pontapés, com seus chutes no meu calcanhar. Um dia tomei
uma decisão. Achei que tudo isso teria que acabar, pois caso contrário eu
poderia sair bem machucado ou até inutilizado.
Quando cheguei à sala
de aulas no dia seguinte, reuni a classe e falei que a partir daquele dia eu
estava menos disposto para atividades fora da escola. O Marcão era quem mais
prestava atenção. Continuei falando, anunciei que estava namorando e não ficava
bem deixar a namorada sozinha para ir jogar bola ou bater papo na sorveteria.
Foi quando perguntaram quem era ela. Respondi, é a Laura. Nesse momento dos olhos
do Marcão saíram faíscas, raios, coriscos que, se atingisse alguém, por certo
cremaria, pois a Laura era nada mais, nada menos, que a irmã dele.
Maria de Jesus
fev/2015
Maria de Jesus
fev/2015