domingo, 8 de fevereiro de 2015

Estrada do Mil Alqueires

Estava retornando de minha jornada, era noite, e caminhava com a luz da lua. Ao longe, podia observar que estava mais claro, sinalizando que havia uma cidade, bem próximo. Vinha calmamente, passo a passo, brigando com meus pensamentos, de vez em quando levando sustos das criaturas da noite. Justo naquele dia, o carro quebrara e, eu não tinha outra opção a não ser caminhar, caminhar e caminhar. De manhã, certamente levaria um guincho para rebocá-lo até uma oficina. Um pio de uma coruja aqui, um correr de algum animalzinho assustado ali, nada que me fizesse desistir da caminhada. Mas, como desistir se já estava longe de onde deixei o carro. Não tinha mais volta. De repente ouço o tropel de cavalos vindo na minha direção. Corriam velozes, relinchando, não sei a quantidade, mas pareciam muitos, e cada vez mais pertos. Não sabia o que fazer, ir para beira da estrada? Não havia como, era muito mato e poderia haver cobra. Imaginei que chagando, passariam por mim sem problemas. Continuavam correndo e se aproximando. Ao chegarem perto, parei, esperando os animais, que passaram. Nesse momento percebi que estava num pasto, cercado e que não ofereciam problemas. Mas era noite, como saber? Continuei, mas desta vez, com passos mais longos, mas ainda sem pressa, afinal deveria ser pouco mais da meia noite. As árvores da beira da estrada faziam sombras com imagens horríveis. Ainda pensei, se alguém vier em sentido contrário, com carro, ou moto, pedirei para que me leve de volta, nem que tenha que pagar caro, mas valerá à pena.  Nem bem tinha acabado de pensar, a luz de um veículo apareceu, ainda distante, mas dando a esperança. Como pará-lo? Não tinha nem farolete, nada que pudesse sinalizar. O celular também ficou no carro, descarregado. Acho que assim que se aproximar entro na frente e o condutor me vendo, de certo vai parar. Esperei, esperei, mas continuei andando. Quando se aproximou, entrei rapidamente na frente, era moto, de susto o motociclista quase caiu, ficou meio que pendurado na moto, firmando o pé no chão, já gritando, “Não me mate, não me mate, não me mate”. Não vou te matar não moço, nem arma eu tenho. Foi neste momento que ele deu um pulo na moto, acelerou e sumiu na estrada, não dando tempo para que solicitasse ajuda. Putz, já ficando nervoso, será que terei que fazer todo o caminho a pé? Andei por cerca de uma hora e nem sinal de viva alma, nem mesmo para me assustar, pensei. Tudo estava calmo, calmo até demais.  Nesse passo em duas horas estarei chegando a minha casa. Não mais que de repente, de uma moita sai um animal de médio porte e vem na minha direção. Não pensei duas vezes, comecei a correr, eu que jamais tinha feito qualquer corrida raso meio fundo ou fundista, fiz os três ao mesmo tempo. O animal corria atrás de mim, quase me alcançando. Não era cachorro, pois não latia, a não ser que seja mudo. Percebi que ele já estava a certa distância, não me alcançaria se eu continuasse a correr, mas nesse momento, meus pés escorregaram na areia da estada e o tombo foi fantástico. O animal se aproximou, cheirou, cheirou e sumiu no mato. Era uma Anta, que estava tão assustada quando eu e deveria ter alguma cria nova. Ou será que a Anta era eu? Bem, agora que estou na chuva, vou me molhar, mas seguirei o caminho. As pernas já não queriam obedecer. Quanto eu tinha andado? Não sei e, sei menos ainda o quanto eu terei que andar. Xingava o carro de tantos nomes até a última geração dele, como se o mesmo tivesse alguma culpa. Na verdade a culpa era minha de não fazer a manutenção adequada. Bem, vamos em frente, pois seu eu parar, não chegarei nunca, apesar de que, se amanhecesse, teria melhores chances de conseguir carona. Ninguém, mas ninguém mesmo passava naquela estrada, naquela hora, a não ser o trouxa aqui. De repente sai um grito de minha garganta. Assustei-me com o voar de uma coruja, que de certo estava na estrada e ao alçar vou passou bem perto de minhas pernas, fazendo aquele barulho estridente, que só as corujas fazem. Acho que não sujei a roupa, pois não tinha comigo nada, fazia algum tempo. E pensar que eu tinha ido levar para casa, uma garota que eu estava afim dela, mas que seus pais, rudes, não a deixavam namorar e, por isso tive que deixá-la uns 500 metros antes do seu destino final. É para acabar com o meu dia mesmo. Olha lá se não chamarem a Policia e denunciar meu carro abandonado, logo de manhãzinha. Eu tenho que chegar à cidade e tomar as devidas providências. Isso já passava de duas horas da manhã. Na verdade quase três horas. De repente estaquei no meio do caminho, pois na minha frente alguns metros, uns trinta talvez, vira o vulto de uma pessoa parada. Não dava pra ver direito, somente a luz da lua que me ajudava. O que ele estará fazendo ali parado. Não se movia de modo algum. Eu assustado também não saía do lugar. E agora, pensei! Se for, posso ser atacado, mas se não vou, tenho que ficar aqui e me atrasar mais ainda. Coragem, cara, vá em frente, perdido por perdido, truco.  Fui, devagar quase parando, um passo à frente e dois atrás. Quando fui me aproximando, coração bateu ainda mais forte. Nada mais era do que ilusão de ótica formada por aqueles bonecos que ficam na beira da estrada, fazendo sinal de perigo, na passagem de caminhões. Os seus pequenos movimentos eram galhos e folhas que se moviam. Continuando, andei bem uns dez minutos, quando ouvi passos de cavalo, correndo na estrada. Era um cidadão daquelas bandas, que vinha com sua carroça. Dei sinal e o mesmo parou, contei minha história, ele me disse que estava indo para cidade ao Posto de Saúde, retirar guia para consultar o filho pequeno, que passara mal à noite. Levou-me deixando-me o mais próximo possível de minha residência Foi minha sorte.

Maria de Jesus
Fev/2015

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