Estava retornando de minha
jornada, era noite, e caminhava com a luz da lua. Ao longe, podia observar que
estava mais claro, sinalizando que havia uma cidade, bem próximo. Vinha
calmamente, passo a passo, brigando com meus pensamentos, de vez em quando
levando sustos das criaturas da noite. Justo naquele dia, o carro quebrara e, eu
não tinha outra opção a não ser caminhar, caminhar e caminhar. De manhã,
certamente levaria um guincho para rebocá-lo até uma oficina. Um pio de uma
coruja aqui, um correr de algum animalzinho assustado ali, nada que me fizesse
desistir da caminhada. Mas, como desistir se já estava longe de onde deixei o
carro. Não tinha mais volta. De repente ouço o tropel de cavalos vindo na minha
direção. Corriam velozes, relinchando, não sei a quantidade, mas pareciam
muitos, e cada vez mais pertos. Não sabia o que fazer, ir para beira da
estrada? Não havia como, era muito mato e poderia haver cobra. Imaginei que
chagando, passariam por mim sem problemas. Continuavam correndo e se
aproximando. Ao chegarem perto, parei, esperando os animais, que passaram.
Nesse momento percebi que estava num pasto, cercado e que não ofereciam problemas.
Mas era noite, como saber? Continuei, mas desta vez, com passos mais longos,
mas ainda sem pressa, afinal deveria ser pouco mais da meia noite. As árvores
da beira da estrada faziam sombras com imagens horríveis. Ainda pensei, se alguém
vier em sentido contrário, com carro, ou moto, pedirei para que me leve de
volta, nem que tenha que pagar caro, mas valerá à pena. Nem bem tinha acabado de pensar, a luz de um
veículo apareceu, ainda distante, mas dando a esperança. Como pará-lo? Não
tinha nem farolete, nada que pudesse sinalizar. O celular também ficou no
carro, descarregado. Acho que assim que se aproximar entro na frente e o condutor
me vendo, de certo vai parar. Esperei, esperei, mas continuei andando. Quando
se aproximou, entrei rapidamente na frente, era moto, de susto o motociclista
quase caiu, ficou meio que pendurado na moto, firmando o pé no chão, já gritando,
“Não me mate, não me mate, não me mate”. Não vou te matar não moço, nem arma eu
tenho. Foi neste momento que ele deu um pulo na moto, acelerou e sumiu na
estrada, não dando tempo para que solicitasse ajuda. Putz, já ficando nervoso,
será que terei que fazer todo o caminho a pé? Andei por cerca de uma hora e nem
sinal de viva alma, nem mesmo para me assustar, pensei. Tudo estava calmo,
calmo até demais. Nesse passo em duas
horas estarei chegando a minha casa. Não mais que de repente, de uma moita sai
um animal de médio porte e vem na minha direção. Não pensei duas vezes, comecei
a correr, eu que jamais tinha feito qualquer corrida raso meio fundo ou fundista,
fiz os três ao mesmo tempo. O animal corria atrás de mim, quase me alcançando.
Não era cachorro, pois não latia, a não ser que seja mudo. Percebi que ele já estava
a certa distância, não me alcançaria se eu continuasse a correr, mas nesse
momento, meus pés escorregaram na areia da estada e o tombo foi fantástico. O animal
se aproximou, cheirou, cheirou e sumiu no mato. Era uma Anta, que estava tão assustada
quando eu e deveria ter alguma cria nova. Ou será que a Anta era eu? Bem, agora
que estou na chuva, vou me molhar, mas seguirei o caminho. As pernas já não
queriam obedecer. Quanto eu tinha andado? Não sei e, sei menos ainda o quanto
eu terei que andar. Xingava o carro de tantos nomes até a última geração dele,
como se o mesmo tivesse alguma culpa. Na verdade a culpa era minha de não fazer
a manutenção adequada. Bem, vamos em frente, pois seu eu parar, não chegarei
nunca, apesar de que, se amanhecesse, teria melhores chances de conseguir
carona. Ninguém, mas ninguém mesmo passava naquela estrada, naquela hora, a não
ser o trouxa aqui. De repente sai um grito de minha garganta. Assustei-me com o
voar de uma coruja, que de certo estava na estrada e ao alçar vou passou bem
perto de minhas pernas, fazendo aquele barulho estridente, que só as corujas
fazem. Acho que não sujei a roupa, pois não tinha comigo nada, fazia algum
tempo. E pensar que eu tinha ido levar para casa, uma garota que eu estava afim
dela, mas que seus pais, rudes, não a deixavam namorar e, por isso tive que
deixá-la uns 500 metros antes do seu destino final. É para acabar com o meu dia
mesmo. Olha lá se não chamarem a Policia e denunciar meu carro abandonado, logo
de manhãzinha. Eu tenho que chegar à cidade e tomar as devidas providências.
Isso já passava de duas horas da manhã. Na verdade quase três horas. De repente
estaquei no meio do caminho, pois na minha frente alguns metros, uns trinta
talvez, vira o vulto de uma pessoa parada. Não dava pra ver direito, somente a
luz da lua que me ajudava. O que ele estará fazendo ali parado. Não se movia de
modo algum. Eu assustado também não saía do lugar. E agora, pensei! Se for,
posso ser atacado, mas se não vou, tenho que ficar aqui e me atrasar mais
ainda. Coragem, cara, vá em frente, perdido por perdido, truco. Fui, devagar quase parando, um passo à frente
e dois atrás. Quando fui me aproximando, coração bateu ainda mais forte. Nada
mais era do que ilusão de ótica formada por aqueles bonecos que ficam na beira
da estrada, fazendo sinal de perigo, na passagem de caminhões. Os seus pequenos
movimentos eram galhos e folhas que se moviam. Continuando, andei bem uns dez
minutos, quando ouvi passos de cavalo, correndo na estrada. Era um cidadão daquelas
bandas, que vinha com sua carroça. Dei sinal e o mesmo parou, contei minha
história, ele me disse que estava indo para cidade ao Posto de Saúde, retirar
guia para consultar o filho pequeno, que passara mal à noite. Levou-me
deixando-me o mais próximo possível de minha residência Foi minha sorte.
Maria de Jesus
Fev/2015
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