Ela passava todos os
dias na minha rua, mais precisamente na minha calçada. Não sei o que a atraia,
pois parava defronte ao meu portão, como se quisesse entrar, mas depois de
alguns minutos continuava sua caminhada. Foi assim durante toda a semana logo
de manhã, porém durante o dia não a
via mais nem mesmo se voltava pelo mesmo caminho. Comecei a esperar sempre no
mesmo horário, pois sabia que ela não faltava, e como um relógio exato vinha
tranqüila, caminhando, ora mais lentamente, ora mais rapidamente, dependia do
movimento das pessoas, que nessa hora se dirigiam para o trabalho diário, e ela
apenas se desviava de um ou de outro pouco se importando com a preocupação de
quem passava a seu lado, às vezes quase a atropelando.
Mas tinha que parar na frente do portão, era
sagrado. Parada obrigatória de apenas alguns segundos, talvez uns 30, ora mais
prolongado de alguns minutos, talvez uns dois. Mas aquilo estava me chamando à
atenção. De onde viria e para onde iria? De perto, de longe, como era o seu dia
a dia, era bem tratada? Era sim, não aparentava haver sofrimentos em seus gestos.
Mas então, que compromisso tinha todos os dias e no mesmo horário. Será que já
se tornara mecânico? Não mais notava que repetia?
Comecei a pensar que
não muito distante dali alguém a esperava. Ou será que também parava na frente
de outras casas? Outros também estavam fazendo divagações como eu? Comecei a
pensar que estava ficando doido me preocupando ou ficando interessado com quem nem
sabia de minha existência. E se soubesse sinal que não ligava para o que eu
prensava. Mas os dias continuavam passando e, agora já nem conseguia mais ficar
na porta esperando por ela, ia direto para o portão vê-la de perto, se
aproximando ainda, ora devagar, ora com mais pressa, mas sempre parando
defronte a ele, o portão, não demonstrando a intenção de entrar, e o mais
surpreendente, fazendo de conta que eu não estava ali.
Até já tinha lhe arranjado um nome, Luisa, que
significa Lutadora, pois achava que ela lutava por alguma coisa. Mas o quê? Não
fazia a menor idéia. Apenas sabia que todos os dias, faça sol ou chova, ela
passa pela mesma calçada, para defronte ao mesmo portão e depois segue seu
caminho. Aquilo já estava me apavorando, não por esse ato repetitivo, mas por
mim mesmo, de não saber as respostas das muitas perguntas que me fazia e, até
mesmo por demonstrar tanto interesse. Será que eu estava ficando doente, louco,
lelé da cuca? Não, não estava disso tinha plena certeza, apenas curioso.
Mas então qual o motivo de eu deixar passar
todo esse tempo, ficar esperando sempre no mesmo lugar e nem procurar qual o
destino dela? Vou fazer... juro que vou
fazer, vou atrás para saber quem é, onde mora. Hoje é sábado, tem menos gente
na calçada, por isso ficará mais fácil segui-la... ela está vindo, é agora, bem,
seja o que Deus quiser.
Para minha surpresa ela seguiu mais ou menos
quatro quadras adiante, parou em frente ao portão de uma casinha simples e que
já estava aberto, entrando sem cerimônias. Lá de dentro veio um senhor de meia
idade para fechar o portão. Aproveitei para perguntar se a conhecia, me
respondendo que sim. Era sua cadela que ele soltava de madrugada, já que
acordava bem cedo, para que passeasse e ao mesmo tempo fizesse suas
necessidades e ela acostumou-se a voltar sempre nesse horário.
O mistério estava desfeito.
Maria de Jesus
Jan/2014
Nenhum comentário:
Postar um comentário