sábado, 22 de novembro de 2014

A transeunte

Ela passava todos os dias na minha rua, mais precisamente na minha calçada. Não sei o que a atraia, pois parava defronte ao meu portão, como se quisesse entrar, mas depois de alguns minutos continuava sua caminhada. Foi assim durante toda a semana logo de manhã, porém durante o dia não a via mais nem mesmo se voltava pelo mesmo caminho. Comecei a esperar sempre no mesmo horário, pois sabia que ela não faltava, e como um relógio exato vinha tranqüila, caminhando, ora mais lentamente, ora mais rapidamente, dependia do movimento das pessoas, que nessa hora se dirigiam para o trabalho diário, e ela apenas se desviava de um ou de outro pouco se importando com a preocupação de quem passava a seu lado, às vezes quase a atropelando.
 Mas tinha que parar na frente do portão, era sagrado. Parada obrigatória de apenas alguns segundos, talvez uns 30, ora mais prolongado de alguns minutos, talvez uns dois. Mas aquilo estava me chamando à atenção. De onde viria e para onde iria? De perto, de longe, como era o seu dia a dia, era bem tratada? Era sim, não aparentava haver sofrimentos em seus gestos. Mas então, que compromisso tinha todos os dias e no mesmo horário. Será que já se tornara mecânico? Não mais notava que repetia?
Comecei a pensar que não muito distante dali alguém a esperava. Ou será que também parava na frente de outras casas? Outros também estavam fazendo divagações como eu? Comecei a pensar que estava ficando doido me preocupando ou ficando interessado com quem nem sabia de minha existência. E se soubesse sinal que não ligava para o que eu prensava. Mas os dias continuavam passando e, agora já nem conseguia mais ficar na porta esperando por ela, ia direto para o portão vê-la de perto, se aproximando ainda, ora devagar, ora com mais pressa, mas sempre parando defronte a ele, o portão, não demonstrando a intenção de entrar, e o mais surpreendente, fazendo de conta que eu não estava ali.
 Até já tinha lhe arranjado um nome, Luisa, que significa Lutadora, pois achava que ela lutava por alguma coisa. Mas o quê? Não fazia a menor idéia. Apenas sabia que todos os dias, faça sol ou chova, ela passa pela mesma calçada, para defronte ao mesmo portão e depois segue seu caminho. Aquilo já estava me apavorando, não por esse ato repetitivo, mas por mim mesmo, de não saber as respostas das muitas perguntas que me fazia e, até mesmo por demonstrar tanto interesse. Será que eu estava ficando doente, louco, lelé da cuca? Não, não estava disso tinha plena certeza, apenas curioso.
 Mas então qual o motivo de eu deixar passar todo esse tempo, ficar esperando sempre no mesmo lugar e nem procurar qual o destino dela?  Vou fazer... juro que vou fazer, vou atrás para saber quem é, onde mora. Hoje é sábado, tem menos gente na calçada, por isso ficará mais fácil segui-la... ela está vindo, é agora, bem, seja o que Deus quiser.
 Para minha surpresa ela seguiu mais ou menos quatro quadras adiante, parou em frente ao portão de uma casinha simples e que já estava aberto, entrando sem cerimônias. Lá de dentro veio um senhor de meia idade para fechar o portão. Aproveitei para perguntar se a conhecia, me respondendo que sim. Era sua cadela que ele soltava de madrugada, já que acordava bem cedo, para que passeasse e ao mesmo tempo fizesse suas necessidades e ela acostumou-se a voltar sempre nesse horário.
 O mistério estava desfeito.


Maria de Jesus
Jan/2014

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